terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nesse mês de Janeiro, os laboratórios da F.I.A. têm sido na rua, estamos investigando fora do estúdio. Nessa dança tenho me deparado com o invisível e o visível, com o interior e o exterior!

Esses dias, ao andar pelas ruas da Mouraria, vi várias pessoas que cruzaram por mim, assim como quem sai do quarto para ir ao banheiro, com muita tranqüilidade e naturalidade. Estando lá junto a essas pessoas andando, pensei que não estava só vendo o seu andar cotidiano, com os olhos de um visitante que nunca mais as veria, percebi que elas tinham coisas com elas que eu talvez não enxergasse, mas percebia... algo além do exterior delas, coisas interiores estavam na imagem delas. Aí eu me pergunto, o interior é mais visível que o exterior? Até onde vai o meu enxergar? O que se passa no interior é invisível?

Dancei, então, o choro que é para dentro, o riso que é para dentro... Percebi que tenho um padrão de pensar, que se há coisas que estão dentro, no interior, então são invisíveis. Como é doído o choro que escorre para dentro... como esse choro poderia não ser enxergado? E pensar que tantas coisas estão tão pra fora, e que de tão externas que são, ficam difíceis de olhar... quanto há no exterior que não enxergamos!

Esses últimos dias, temos estudado o sistema digestivo, e observado todo o longo processo que há do alimento ao entrar para dentro do corpo... são tantas fases, há o mastigar, há o engolir, há o tempo de transformação no estômago e as conversas desse com o fígado, as longas curvas do caracol que é o intestino delgado, e depois o grosso... até termos o produto que saí e retorna ao exterior! E quantas fases eu pulei aqui, são muitos movimentos desde a entrada até a saída, é um longo processo, cheio de estágios diferentes. E quantos estágios pulo na minha digestão? Será que tenho noção do quanto podem ser longos e importantes os estágios que não considero nesse processo? Só por ser interno eu desconsidero?

É realmente rico e vital esse processo de alimentação, de digestão! Onde ele começa? No colocar do alimento na boca? Ou antes, no cortar os alimentos? Ou antes, na escolha do que comer? Ou antes, no considerar como aquilo que se come é feito? E como termina esse processo? Pela descarga, simplesmente?

Tudo isso me reporta para a minha experiência dentro do c.e.m, na expansão do que pode ser um “ser artista no mundo”! É perigoso mesmo esse território! Quais os estágios, os processos que considero e os que não considero?! As questões são as mesmas... onde começa e onde termina?

Como é bom abrir a janela, andar na rua... e perceber o respirar da cidade, todos os interiores e exteriores presentes, as visibilidades e as invisibilidades. Fica tão distante o pensamento de que tenho que parar para criar, que tenho que ir achar inspiração, de que há talento... que comprometimento é esse? Como pensar apenas no cocô que vai sair daqui a pouco, se já há mais coisas no meu estômago... como considerar apenas uma parte, se é próprio do corpo a necessidade de continuar comendo e continuar cagando! Continuar.., é comprometer-se com esse continuar... então por que parar numa fase? Como é que pulamos etapas... Ah que má digestão!

Adelante... Continuar... Considerando que há varias etapas dessa digestão criativa! Claro que às vezes é o esôfago que fala mais alto, mas os rins estão lá trabalhando na mesma! É tão próprio do corpo isso, de haver vários movimentos presentes no mesmo tempo, e é tão difícil perceber isso cá fora, olhando pra cidade... E é tão lindo saber que no riso também há choro, mesmo que escorram as lágrimas invisíveis... há tudo. Considero que às vezes é possível sorrir e às vezes é possível chorar, mas poderia chorar ao invés de rir, poderia odiar estar aqui... poderia não escrever.

sábado, 2 de janeiro de 2010


É incrível o que se pode ser num momento e depois ser em outro, como é que pode tanta coisa se passar num mesmo espaço, num mesmo corpo, tanta coisa muda em segundos. Ser uma pessoa carrega esses mistérios. Já passei por aqui em outros corpos, de outras maneiras, estou aqui agora de outras maneiras em vários corpos! A minha arte é sobre sobreviver nesses corpos.

Vamos com calma! Isso é bem complicado, eu sei, vamos a diante e vejamos como essa conversa se segue...

Às vezes penso que isso que estou falando se revela nos sonhos. Sonho que estou com 15 anos, 10 anos, retorno, passo pelo mesmo lugar, ou volto àquilo que já se foi. É que não se foi... ainda há... sou eu. Eu ainda tenho 13 anos.

Com isso percebo o quanto ser uma pessoa é complexo. Tenho até medo de ser quem sou, pois não sou só um nome. Dentro do meu presente há a imensidão de ir além do meu presente. Isso me leva a perceber que em um segundo percorro toda a minha existência. Isso até me assombra, pois como saber o quanto posso fazer em um segundo. O que eu escolho fazer agora?!

A escolha não é de agora. Sinto que é assim a minha arte. Não há outra escolha a não ser continuar sobrevivendo com meu corpo no mundo, sendo uma pessoa. Sou uma presença no mundo, e não é indiferente cada segundo meu, e isso não depende de escolhas, não escrevo pelo simples fato de que decido, ou escolho escrever! Ser quem sou não é apenas uma questão a se decidir!

Por isso é muito complicado decidir coisas, escolher caminhos sendo uma pessoa, pois podemos cair num engano, numa redução do que é ser uma pessoa crendo que mudar de direção é afunilar toda uma existência, sendo uma coisa aqui e outra independente lá. Isso me faz pensar que sempre voltamos a nós mesmos, num eterno retorno! Mas como é complexo esse movimento de retornar!

É espantoso como posso me surpreender com coisas que já conheço. Com o retorno... No continuo da vida algumas coisas retornam e me causam espanto pelo quanto ainda posso olhar, como ainda há muito para se perceber.

Assisti novamente o filme “As horas”, é incrível me deparar com todas aquelas questões contidas naqueles diálogos, naquelas imagens. Logo após pensei que poderia escrever, e escrever muito, e escrever mais ainda, até amanhecer!

Por que escuto sempre as mesmas músicas?

Hoje é natal, ano que vem também será, e as musicas vão ser as mesmas. E aprendo tanto com isso!

O filme mistura histórias, desloca situações e todas as histórias se voltam num mesmo ponto... há sempre o desaguar do rio no mar, é como retornar, sem pensar em começar de novo, ou em terminar... não é para terminar que um rio se encontra com o mar. Não é para começar que ele brota do chão. Pois nascendo ou desaguando ainda continua sendo rio... há o movimento rio.

Às vezes percebo que reduzo a idéia de nascer e de morrer... reduzo o que é isso sendo uma pessoa. Pois não é só para nascer que nascemos, não é só pra morrer que morremos, há o movimento de ser pessoa no mundo antes de nascer e esse movimento continua no depois de morrer. E o que vivemos agora contém toda essa vibração!
Por que pensar os ciclos como círculos? Serão sempre circulares?
Com essas reflexões consigo perceber melhor as formas, as tradições, os retornos. O ser alguém.

Penso que a minha letra pode sempre se mostrar diferente, mas é da minha mão que sai. Pensei agora na letra e na mão. As duas são coisas sempre diferentes, sempre mudam, mas o que se passa é o ato de escrever, é para isso que eu retorno. O filme hoje foi outro, diferente de 2 anos atrás, os olhos também já são outros, mas ligam-se as diferenças, as transformações pelo ato de assistir, ou agora de escrever!
Há coisas que me dão suporte para estar vivo.

Há coisas que vivem para outras morrerem. Há coisas que morrem para outras viverem. E nesse movimento todo, nesse ir e vir das águas há as pedras que sempre estão lá em meio à correnteza, há as músicas, os filmes, as danças.

A fome e a comida, a mão e a letra.

Em alguns momentos há a potencialização dessas forças pela urgência de expressões que nada mais são que eu mesmo, que nada mais são do que eu vivendo, que nada mais são do que eu morrendo... Sendo pessoa no mundo, tendo um corpo.

Preciso encontrar sempre essas pedras, essas músicas, esses filmes, sem medo de ficar preso no retornar, ver que nisso já há imenso movimento, não ver nisso o enrijecer. Falando sobre isso, percebo que, como as personagens do filme, também tenho medo da minha própria vida! Medo de ouvir de novo aquela música. De ler e reler o que escrevo. Tenho medo de ser quem sou. Medo de aceitar um caminho, um ritmo. Mas é que muitas vezes não percebo que não é sobre ter certezas... É sobre perceber que ainda há mais naquelas pedras, naquele filme, que há ainda mais para escrever. É sobre perceber que não se vive simplesmente porque se nasce, não se morre simplesmente porque se termina uma vida. É sobre viver uma vida. Amar. Sobreviver num corpo que carrega em si toda a sua existência a cada segundo... e nem por isso se torna pesado..

tem desejos. Segue um caminho... Dança.