Ainda sobre o tempo!
Fiquei pensando muito e enquanto dançava, enquanto olhava, enquanto estava por aí me depararei com tudo o que escrevi anteriormente sobre tempo. Agora me perdoe! Pois gostaria de trocar ainda algumas coisas contigo sobre o tempo! (se bem que acho que sempre estamos falando sobre ele, com ele...)
Trago a palavra RELEMBRAR para o nosso encontro! Mas trago-a fazendo perguntas, trago-a de uma forma que não sei bem olhar. Estou vendo o relembrar como o relembrar de coisas ainda não vividas. O relembrar algo que não é do passado, deve de estar no tempo, mas ainda não vivido. É esquisito mesmo... é muito curioso. Tenho passado por algumas situações que nunca experimentei antes, mas é como se eu já soubesse lidar com elas, pois parecem que estavam lá desde sempre por algum lugar no meu corpo na minha carne... estaria eu falando de instinto?! Não sei. Sei que é uma memória ativa, autônoma, independe de um tempo remoto. Mas acho que não é só isso. Um exemplo: desde que cheguei a Lisboa meu corpo tem se mostrado diferente, tem experimentado um ritmo diferente, um ritmo intenso diário, na luz do sol, no frio. Minha alimentação tem mudado, e com isso tenho comido uma quantidade muito menor de comida, e não faço esforço pra isso. É que é possível. É possível empregar minha atenção e outros sentidos, é possível passar 15 horas dançando num dia. O corpo sabe renovar-se, começar e terminar, renascer. São movimentos que o corpo conhece de longa data... assim é que percebo uma memória que não conhecia, RECORDO uma presença tão minha que ainda não tinha experimentado... que é do próprio corpo. Estou falando de tempo, isso é do tempo! Não sei explicar isso, mas é do tempo. É o corpo a passar pelo tempo. Recordamos porque esquecemos, mas também recordamos porque o corpo avança no tempo, e algumas coisas são constantes mesmo que não nos lembremos.
O coração já esteve acima da cabeça!
Ao fim da terceira semana de gestação o embrião já tem algo que começa se especializar em ser coração. E nesse momento tudo o que está se especializando em ser encéfalo esta mais abaixo do que esta dizendo: “vou ser o coração”. Eis que chega um tempo em que tudo muda... há diversos movimentos, diverso ir e vir nessa dança de um aglomerado de células que começa se preparar, a considerar que um dia ali vai haver um fígado, e mais ao lado vai haver um estômago. E o que vai ser coração passa para baixo e o que vai ser cabeça passa para cima. Isso é o relembrar de que falo. Imagine relembrar fisicamente, experiencialmente que um dia, um dia desses, o seu coração estava acima da sua cabeça, e que você é assim hoje porque um dia houve umas células que trocaram de posição!
Falei mais acima dos movimentos que o corpo conhece de longa data, como o começar, o terminar, o renascer e mesmo o morrer. A data é longa, mas é incrível, porque se você prestar a tenção e olhar o que falo bem de perto, você percebe que esses movimentos tão “primitivos” estão com você agora mesmo!
Essa dança de um dia considerar que ali haverá um fígado e mais ao lado um estômago ainda pode ser sentida, esse ir e vir ainda existe. Fascina-me essa compreensão do gestar! É um constante movimento de urgências, que começa com algumas células que de tanto moverem-se (e movem-se porque é isso podem fazer), vão dividindo-se, multiplicando-se, até não serem mais só células, até formarem rios, caminhos, cidades, até formarem uma pessoa inteira. Mas até chegar aí, é muito ir e vir, são muitos nascimentos, e muitas mortes (já há morte desde o útero), penso que aí é que começa a migração, o ir ou ficar, as despedidas, os encontros, o considerar estar ali ou aqui, as especializações! É tão simples... e por isso é tão difícil de se ver.
Mas é que não é sobre agüentar! É sobre relembrar!
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
sábado, 12 de dezembro de 2009
Sobre Tempo

Hoje faz exatamente dois meses que cheguei aqui em Portugal!
Exatamente dois meses... bem, isso me soa bem estranho. Está certo que números são números, e que eles têm uma ordem estranha que a gente finge que entende bem. O problema é pensar o tempo no mesmo modo de como se conta até 10. Cheguei aqui há muito tempo, há muitos tempos, ao mesmo tempo... é uma loucura! Já não estou nada certo de como funciona isso que chamamos de tempo... nem sei se estou de acordo que o que chamo de tempo é o mesmo que você chama de tempo. Há quanto tempo estou aqui? É muita coisa aí dentro dessa perguntinha...
Passar o dia a movimentar-se, horas dentro do ir e vir do corpo, percebendo suas constantes alterações... suas manchas. É incrível o quanto mudamos... Estou caminhando e de repente sinto-me tão cansado que poderia desfalecer, e daqui a um minuto estou pulando freneticamente como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Deito no chão e de repente me sinto tão sozinho que lágrimas caem dos olhos, viro-me para o lado e uma gargalhada me abre o peito. Tudo isso pode se passar em 10 minutos ou menos... ou em um dia, ou nunca... Com? Também não entendo, pois eu sou uma pessoa, e isso não é sobre ser uma pessoa apenas, pois para ser uma pessoa tem se entender, e isso não se entende...
Não há prazos. Não há chegada. O que sou eu? Isso é muito perigoso. Eu não sou uma coisa que acaba aqui e começa ali. Eu não sou uma coisa só, uma só identidade fixa. Por isso não é sobre guardar, ou conseguir, ou cansar-se... acumular coisas nos enrijece, trava nossas articulações... não é sobre pesar, não é sobre o quando agüento... é sobre se eu posso. Até onde podemos ir aqui?! Já pensou nisso?! Isso te lembra algo em relação ao tempo?!
O que me assusta nisso é te falar: “não posso ficar mais, tenho que sair, meu tempo acabou”. Que limites são esses? Onde paramos? Podemos ir mais? O tempo não é um limite... não dá pra sair... Falo aqui como quem não tem hora pra parar, não falo sobre o que começa as 6h e acaba as 10h. Não acaba!
Falo sobre vazar, sobre continuar, e continuar mesmo sem saber para onde, falo sobre o que não consigo falar... é como ver o invisível, e você pode ver o invisível!
Por isso não é sobre mim. Isso não tem tempo, não tem pai nem mãe, não tem nome, não se segura na mão. Não é um território, não há fronteiras. E não é pra ser difícil! Mas talvez seja... e isso é um mistério! Falo isso tudo, mas sei que faz dois meses que estou aqui, tenho calendários, tenho calculadoras, faço contas... pois não é sobre negação e interrupção ou substituição... é sobre abrir portas e ver mais e mais sem precisar esquecer-se o que já se viu antes!
Tempo...
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