terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Relembrar!!!

Ainda sobre o tempo!

Fiquei pensando muito e enquanto dançava, enquanto olhava, enquanto estava por aí me depararei com tudo o que escrevi anteriormente sobre tempo. Agora me perdoe! Pois gostaria de trocar ainda algumas coisas contigo sobre o tempo! (se bem que acho que sempre estamos falando sobre ele, com ele...)

Trago a palavra RELEMBRAR para o nosso encontro! Mas trago-a fazendo perguntas, trago-a de uma forma que não sei bem olhar. Estou vendo o relembrar como o relembrar de coisas ainda não vividas. O relembrar algo que não é do passado, deve de estar no tempo, mas ainda não vivido. É esquisito mesmo... é muito curioso. Tenho passado por algumas situações que nunca experimentei antes, mas é como se eu já soubesse lidar com elas, pois parecem que estavam lá desde sempre por algum lugar no meu corpo na minha carne... estaria eu falando de instinto?! Não sei. Sei que é uma memória ativa, autônoma, independe de um tempo remoto. Mas acho que não é só isso. Um exemplo: desde que cheguei a Lisboa meu corpo tem se mostrado diferente, tem experimentado um ritmo diferente, um ritmo intenso diário, na luz do sol, no frio. Minha alimentação tem mudado, e com isso tenho comido uma quantidade muito menor de comida, e não faço esforço pra isso. É que é possível. É possível empregar minha atenção e outros sentidos, é possível passar 15 horas dançando num dia. O corpo sabe renovar-se, começar e terminar, renascer. São movimentos que o corpo conhece de longa data... assim é que percebo uma memória que não conhecia, RECORDO uma presença tão minha que ainda não tinha experimentado... que é do próprio corpo. Estou falando de tempo, isso é do tempo! Não sei explicar isso, mas é do tempo. É o corpo a passar pelo tempo. Recordamos porque esquecemos, mas também recordamos porque o corpo avança no tempo, e algumas coisas são constantes mesmo que não nos lembremos.

O coração já esteve acima da cabeça!

Ao fim da terceira semana de gestação o embrião já tem algo que começa se especializar em ser coração. E nesse momento tudo o que está se especializando em ser encéfalo esta mais abaixo do que esta dizendo: “vou ser o coração”. Eis que chega um tempo em que tudo muda... há diversos movimentos, diverso ir e vir nessa dança de um aglomerado de células que começa se preparar, a considerar que um dia ali vai haver um fígado, e mais ao lado vai haver um estômago. E o que vai ser coração passa para baixo e o que vai ser cabeça passa para cima. Isso é o relembrar de que falo. Imagine relembrar fisicamente, experiencialmente que um dia, um dia desses, o seu coração estava acima da sua cabeça, e que você é assim hoje porque um dia houve umas células que trocaram de posição!

Falei mais acima dos movimentos que o corpo conhece de longa data, como o começar, o terminar, o renascer e mesmo o morrer. A data é longa, mas é incrível, porque se você prestar a tenção e olhar o que falo bem de perto, você percebe que esses movimentos tão “primitivos” estão com você agora mesmo!

Essa dança de um dia considerar que ali haverá um fígado e mais ao lado um estômago ainda pode ser sentida, esse ir e vir ainda existe. Fascina-me essa compreensão do gestar! É um constante movimento de urgências, que começa com algumas células que de tanto moverem-se (e movem-se porque é isso podem fazer), vão dividindo-se, multiplicando-se, até não serem mais só células, até formarem rios, caminhos, cidades, até formarem uma pessoa inteira. Mas até chegar aí, é muito ir e vir, são muitos nascimentos, e muitas mortes (já há morte desde o útero), penso que aí é que começa a migração, o ir ou ficar, as despedidas, os encontros, o considerar estar ali ou aqui, as especializações! É tão simples... e por isso é tão difícil de se ver.

Mas é que não é sobre agüentar! É sobre relembrar!

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