
Hoje faz exatamente dois meses que cheguei aqui em Portugal!
Exatamente dois meses... bem, isso me soa bem estranho. Está certo que números são números, e que eles têm uma ordem estranha que a gente finge que entende bem. O problema é pensar o tempo no mesmo modo de como se conta até 10. Cheguei aqui há muito tempo, há muitos tempos, ao mesmo tempo... é uma loucura! Já não estou nada certo de como funciona isso que chamamos de tempo... nem sei se estou de acordo que o que chamo de tempo é o mesmo que você chama de tempo. Há quanto tempo estou aqui? É muita coisa aí dentro dessa perguntinha...
Passar o dia a movimentar-se, horas dentro do ir e vir do corpo, percebendo suas constantes alterações... suas manchas. É incrível o quanto mudamos... Estou caminhando e de repente sinto-me tão cansado que poderia desfalecer, e daqui a um minuto estou pulando freneticamente como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Deito no chão e de repente me sinto tão sozinho que lágrimas caem dos olhos, viro-me para o lado e uma gargalhada me abre o peito. Tudo isso pode se passar em 10 minutos ou menos... ou em um dia, ou nunca... Com? Também não entendo, pois eu sou uma pessoa, e isso não é sobre ser uma pessoa apenas, pois para ser uma pessoa tem se entender, e isso não se entende...
Não há prazos. Não há chegada. O que sou eu? Isso é muito perigoso. Eu não sou uma coisa que acaba aqui e começa ali. Eu não sou uma coisa só, uma só identidade fixa. Por isso não é sobre guardar, ou conseguir, ou cansar-se... acumular coisas nos enrijece, trava nossas articulações... não é sobre pesar, não é sobre o quando agüento... é sobre se eu posso. Até onde podemos ir aqui?! Já pensou nisso?! Isso te lembra algo em relação ao tempo?!
O que me assusta nisso é te falar: “não posso ficar mais, tenho que sair, meu tempo acabou”. Que limites são esses? Onde paramos? Podemos ir mais? O tempo não é um limite... não dá pra sair... Falo aqui como quem não tem hora pra parar, não falo sobre o que começa as 6h e acaba as 10h. Não acaba!
Falo sobre vazar, sobre continuar, e continuar mesmo sem saber para onde, falo sobre o que não consigo falar... é como ver o invisível, e você pode ver o invisível!
Por isso não é sobre mim. Isso não tem tempo, não tem pai nem mãe, não tem nome, não se segura na mão. Não é um território, não há fronteiras. E não é pra ser difícil! Mas talvez seja... e isso é um mistério! Falo isso tudo, mas sei que faz dois meses que estou aqui, tenho calendários, tenho calculadoras, faço contas... pois não é sobre negação e interrupção ou substituição... é sobre abrir portas e ver mais e mais sem precisar esquecer-se o que já se viu antes!
Tempo...

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